Deixemos os fãs do Pokemon Go em paz. Temos muito o que aprender com eles!

Por: Eight
08/08/2016

Cresci na década de 80 consumindo tudo que aparecia pela frente em termos de audiovisual, de Trapalhões a De Volta Para O Futuro. Não tínhamos internet nem TV por assinatura, apenas videocassete na casa de alguns privilegiados (eu era um desses). A Netflix da época se chamava vídeo locadora. Os filmes levavam anos para migrar do cinema para a televisão.

Minha geração, que hoje está na faixa dos trinta e tantos anos, beirando os quarenta, cresceu assistindo aos mesmos programas que seus pais, embora houvesse um aviso de censura antes da transmissão. De Bozo a Roque Santeiro, de Bang Bang à Italiana às pornochanchadas da Sala Especial, assistíamos tudo. Alguns dos principais desenhos da época, como Pica-pau, Pernalonga, Tom & Jerry já haviam sido assistidos e decorados pelos nossos pais. Os seriados japoneses também, muitos deles vinham da década de 60. Somente perto dos anos 90 que conhecemos grupos de heróis asiáticos com roupas coloridas e que travavam as mesmas batalhas sobre maquetes de cidades feitas de isopor.

Chamamos de bobos os fãs de Harry Potter por se vestirem de bruxos. Mas, nós somos legais. Usamos camisas de bandas de rock. Porém, essas bandas que ouvimos são as mesmas que os nossos pais escutavam nas décadas de 60 e 70, como Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, AC/DC, Ramones, Rush, Creedence… Tivemos o mérito de ter incluído nesse repertório um pouco de Nirvana, Pearl Jam, Metallica e Red Hot Chilli Peppers, cuja discografia traz uma série de regravações de funks dos anos 70 mas que nunca nos demos conta.

Recentemente, vimos uma nova febre surgir, um joguinho para smartphone chamado Pokemon Go. Antes de qualquer coisa, começamos a julgar seus fãs. Particularmente, nunca me interessei pelo desenho, assim como também não tenho nenhuma vontade de ver Game of Thrones. Que jogo idiota, quantos idiotas correndo atrás de bichinhos virtuais! E quando era a gente interpretando um encanador italiano que tentava salvar a princesa de um dinossauro?

Os jogos de Atari, do Master System e do Super Nes é que são bons, não é mesmo? Três cores, gráficos horríveis, desafios pífios. Um joystick com apenas um botão vermelho era suficiente. Tridimensionalidade? Para quê? Há 30 anos era o que tínhamos.

Pokemon Go vai muito além de um joguinho para adultos infantilizados. Geolocalização, big data, design, realidade aumentada só para pontuar alguns elementos que esse game reúne. Se ainda não nos demos conta, esse aglomerado de novas tecnologias será o futuro. A turma que veio antes da gente, e que hoje chamamos de velhos, também torceu o nariz quando disseram que os telefones não teriam mais teclas, que todos nós teríamos um computador e que as TVs seriam tão finas quanto um livro.

Nossa rabugice, por não conseguir acompanhar o ritmo de inovações, nos cega. Somos rasos. Somos exageradamente burros por não aproveitar a oportunidade de mergulhar nisso tudo e aprender o máximo que pudermos.

Adoramos usar o termo retrô. Retrô vem de retrocesso, de atraso, de tempo que não volta mais. Não somos a geração iluminada, nem somos relevantes. Somos uma geração conservadora, preconceituosa e preguiçosa. Precisamos tomar um sacode ou seremos uma geração perdida, assim como foi a década de 80.