Diga-me o que posta… e alguém te dirá quem és

Por: Eight
05/05/2016

Vivemos muito tempo com o estigma de que o Brasil não era um país politizado, que as pessoas deixavam todas as discussões envolvendo os altos escalões do governo apenas no raio de Brasília. O único debate que brasileiro sempre se envolveu de fato era o futebol. Éramos mais de 100 milhões de técnicos. Cada um com seu time, cada um com sua verdade.

Anos se passam, o futebol brasileiro chegou a um status de mediocridade como jamais imaginado, a população dobra e hoje somos mais de 200 milhões. Talvez nem sejamos mais o país do futebol.

Nos tornamos 200 milhões de cientistas políticos, juristas, economistas, sociólogos, jornalistas. Sem qualquer embasamento técnico estamos discutindo ferozmente sobre áreas que temos total desconhecimento, sobre as quais não nos informamos. Emitimos opiniões contrárias, ou favoráveis, à Justiça, às operações da Polícia Federal, às teses de defesa e de acusação, ao posicionamento dos veículos de comunicação.

Demoramos muito tempo para acordar. Demoramos tempo demais para nos preparar para um momento como o que estamos vivendo. Se formos analisar, há pouquíssimo tempo, menos de 25 anos, um presidente foi impichado. E o que tomamos como lição? Pelo jeito, muito pouco. Infelizmente ainda somos um país com pouquíssimo hábito de leitura e com uma taxa de analfabetismo funcional muito alta.

Será mesmo que estamos qualificados para militar via timeline? Será que tudo que aparece na nossa rede social é verdade, ou mentira? Tenho sim uma posição em relação ao que está acontecendo. Não sou isentão, que finge estar em cima do muro. Sim, sou a favor de uma reforma política. Sim, sou a favor de uma mudança no governo atual. Sim, sou a favor de uma mudança em toda a linha de sucessão para o caso de um eventual impeachment. Mas isso não quer dizer que quero o candidato derrotado nas últimas eleições como presidente do meu país. Não, não tenho um partido, e não pretendo. Isso também não quer dizer que eu seja um fascista.

Mas, voltando, será que tudo que o Movimento Brasil Livre, o Jair Bolsonaro, a Socialista Morena ou o Tico Santa Cruz, apenas para citar alguns exemplos mais fervorosos, postam é verdade? O que existe é um excesso de paixão. Sim, paixão! Voltamos a falar sobre o jogo do ganhar ou perder. É uma questão movida pelo ego. O ego de quem quer derrubar um governo a todo custo, com argumentos ridículos, ou o ego daquele de que não quer enxergar que existe um problema nesse mesmo governo e que ele, não necessariamente, está na opinião de quem pensa contrário. Estamos perdendo o filtro do exagero. É quase como regredir na escala evolutiva.

Impeachment, sem dúvida, é um processo traumático, mas, às vezes, necessário. O preço que se paga é a perda da credibilidade internacional, a instabilidade econômica. Talvez já estejamos sem credibilidade lá fora e com uma economia em frangalhos.

Tudo o que estamos enfrentando faz parte de um processo de ajuste de conduta. Talvez tenhamos sido relapsos durante muito tempo, dando importância ao que não era tão importante. Infelizmente, toda essa mobilização só começou a ganhar corpo quando as pessoas passaram a sentir no bolso os efeitos de uma recessão econômica. Nos acostumamos nos últimos anos a ter muito mais do que ser. Enchemos nossa casa de quinquilharia, compramos coisas que não precisávamos, tivemos acesso ao mundo em full HD por meio de todos os dispositivos móveis e conectáveis possíveis. Nos isolamos no meio de toda pilha de bagulhos que pudemos comprar. Não nos informamos, não nos preparamos para um momento em que a conta de toda essa maravilha de consumo chegasse. Em vez disso, exorcizamos nossos demônios nas redes sociais, compartilhando todo tipo de besteira que aparece.

Agora, estamos aqui perdidos, sem saber como tomar partido sem ser radicais, acusando ou idolatrando um juiz, demonizando ou endeusando um político, defendendo teses absurdas sobre a viabilidade do impeachment ou a iminência de um golpe, achando que intelectual é qualquer um que grave um CD ou atue em uma novela, detonando o jornal, a emissora, ou revista X ou Y por sua cobertura, mas colocando como exemplo de mídia séria veículos tão ou mais extremistas quanto os criticados.

Se enfrentamos o maior dilema de ética política – da esquerda e da direita – no país, a culpa é nossa, somente nossa. Votamos, não fiscalizamos. Votamos sem saber em quem. Votamos na legenda por não ter um candidato. Votamos correndo para não perder o jogo. Votamos em qualquer um porque político é tudo igual. Votamos nesse ou naquele por uma questão de conveniência. Porém, toda conveniência tem um custo muito alto. Um dia a conta chega!