Exumando um gestor medíocre

Por: Eight
04/04/2018

Gerente de ponto e vírgula… Uma antiga chefe me apresentou a essa expressão. Ela se refere àquele tipo de profissional que alcançou uma posição de liderança, mas que não conseguiu se desvencilhar de suas antigas atribuições. Sabe aquela pessoa que, mesmo que tenha uma equipe qualificada, adora acompanhar em cima o trabalho de todos apenas para ficar procurando pelo em ovo, sem dar qualquer tipo de contribuição? É aquele que pede para mudar uma apresentação inteira apenas porque não gosta de usar ponto ao final de uma sentença, pois prefere ponto e vírgula.

Todo mundo já teve ou conhece alguém que tem um chefe especializado em gestão de coisinhas. Aquele se apega a detalhes tão insignificantes e que esquece de prestar atenção em pontos realmente importantes, como a motivação de sua equipe. Acha que a qualidade do trabalho está na quantidade de horas que o funcionário passa dentro da empresa. É aquele que adora mandar e-mails de follow up aos domingos à noite perguntando sobre o status de algum projeto, mas que esqueceu de ler o relatório referente a esse mesmo projeto que lhe foi enviado dias antes. Tenta justificar seu excesso de zelo como algo fundamental para o sucesso da equipe como forma de disfarçar sua insegurança.

Certo! Ninguém está livre de ter que passar horas a mais no escritório. Eu mesmo sou bem mais produtivo de madrugada e opto por esse horário sempre que preciso dedicar mais concentração a alguma coisa. No entanto, o gestor de ponto e vírgula é aquele que se vangloria por ter passado 16 horas dentro do escritório no dia anterior, e ainda critica os colegas que cumpriram sua jornada dentro do tempo regulamentar. Se coloca na posição de vítima dizendo que, enquanto os outros estavam em casa vendo novela, ele estava lá… trabalhando.

É desorganizado. Não sabe delegar, mas quando tem de fazer, não tem ideia de por onde começar. Não consegue ser cordial. Geralmente, não dá instruções a sua equipe, apenas cobra. É indeciso. Não apresenta uma ideia, apenas critica as dos outros. É o primeiro a entrar em pânico em uma situação crítica em vez de acalmar e orientar sua equipe. E, obviamente, é aquele que não assume seu papel de líder quando as coisas dão errado. Procura sempre um culpado para empurrar no cadafalso se eximindo de qualquer responsabilidade.

Liderança, apesar das inúmeras instruções técnicas disponíveis em cursos e treinamentos, é um princípio que já nasce com a pessoa. Isso não quer dizer que técnicas de aperfeiçoamento não são importantes, pois são sim. No entanto, um profissional sem a menor capacidade técnica e equilíbrio emocional para assumir um desafio de liderança jamais terá um bom desempenho, jamais conseguirá o envolvimento de sua equipe. O líder de verdade sabe respeitar e se dar ao respeito, o que, geralmente, o torna admirado. Mas esse processo é natural, sem qualquer esforço.

O gestor de ponto e vírgula é até esforçado. Geralmente, é aquela pessoa que aguardou uma oportunidade durante muito e se vê no direito a uma posição de liderança exatamente por essa espera longínqua. Porém, imagino que muitos já presenciaram resultados desastrosos de pessoas que tanto buscaram a tal oportunidade que, ao alcançá-la, se mostraram totalmente despreparados para uma responsabilidade desse tipo. Pessoas destemperadas, que mudaram seu comportamento da noite para o dia unicamente pelo novo cargo. Se tornaram personagens caricatos de uma tragicomédia. E, claro. Isso não quer dizer que um bom líder deve ser bonzinho. Não é isso. Ele deve ser inspirador. Mesmo que use uma forma enérgica (mas sempre respeitando a ética), as pessoas sentirão que aprenderam algo no final do dia, e reconhecerão isso.

Agora, esse gestor mediano. É um profissional que sofre. Embora viva tentando se enganar mais do que enganar aos outros, no fundo ele está consciente de sua incapacidade, mas teme reconhecê-la e ter de ceder a oportunidade pela qual tanto esperou. Geralmente baseia sua autoridade somente em sua capacidade técnica e esquece que um bom líder, não necessariamente é apenas um bom técnico. Sem uma visão estratégica e sistêmica, esse profissional pode ser até um chefe, mas nunca uma liderança.